Ex-diretor da L3Harris admite venda de exploits para Rússia

Ex-diretor da L3Harris Peter Williams, australiano de 39 anos que comandava a divisão Trenchant da contratada de defesa, declarou-se culpado nos Estados Unidos por ter vendido exploits zero-day a um corretor ligado ao governo russo. O caso, confirmado nesta quarta-feira (data local) pelo Departamento de Justiça norte-americano (DoJ), envolve pelo menos oito componentes de software classificados como sigilosos, desenvolvidos exclusivamente para Washington e aliados do grupo Five Eyes.

Segundo os promotores, Williams subtraiu o material ao longo de três anos, usando credenciais privilegiadas para copiar as ferramentas do repositório interno da companhia. Em troca, teria recebido cerca de US$ 1,3 milhão em criptomoedas e firmado contrato que previa pagamentos periódicos por suporte técnico aos clientes finais do corretor russo.

Ex-diretor da L3Harris admite venda de exploits para Rússia

Os investigadores afirmam que o impacto financeiro direto sobre a L3Harris Trenchant ultrapassa US$ 35 milhões, sem contar riscos adicionais à segurança nacional. Fundada após a aquisição das startups australianas Azimuth e Linchpin Labs, em 2019, a Trenchant fornece spyware e vulnerabilidades desconhecidas (zero-days) a governos dos Estados Unidos, Reino Unido, Canadá, Austrália e Nova Zelândia. O vazamento, portanto, expôs recursos considerados estratégicos em operações de inteligência.

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A acusação, apresentada em 14 de outubro, já indicava a venda de “segredos comerciais” a um comprador russo, sem revelar a natureza exata dos arquivos. O anúncio desta quarta-feira detalha que se tratava de exploits prontos para ataque, destinados originalmente a plataformas como navegadores e sistemas operacionais populares. O corretor, cujo nome permanece sob sigilo, se apresenta publicamente como revendedor de ferramentas de intrusão para diversos clientes, entre eles agências estatais de Moscou.

Williams, conhecido no meio de cibersegurança pelo apelido “Doogie”, responde a duas acusações de roubo de segredos de comércio, cada uma com pena máxima de dez anos de prisão. A sentença está marcada para janeiro de 2026. Até lá, ele permanece em prisão domiciliar na região de Washington, D.C., conforme relatou o jornalista Patrick Gray, do podcast Risky Business. Antes de ingressar na L3Harris, Williams trabalhou na Signals Directorate, a agência australiana de inteligência de sinais.

Em comunicado, a procuradora norte-americana Jeanine Pirro classificou o corretor russo como parte de “uma nova geração de traficantes de armas cibernéticas”. Já o assistente do procurador-geral para Segurança Nacional, John A. Eisenberg, criticou a “conduta deliberada e enganosa” do ex-executivo, que, segundo ele, “colocou em risco a segurança nacional em troca de ganho pessoal”. A L3Harris, contatada pela reportagem do TechCrunch, preferiu não se manifestar.

A defesa de Williams ainda não respondeu aos pedidos de comentário. No entanto, antigos colegas relatam que o clima interno na Trenchant azedou desde o início das investigações. Em depoimento à imprensa, um ex-desenvolvedor afirmou ter sido demitido sob suspeita de vazar zero-days do Chrome, embora garantisse nunca ter tido acesso a esse código, por trabalhar exclusivamente em falhas de iOS.

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Imagem: Getty

Além do desfalque financeiro, especialistas alertam que a disseminação de exploits não divulgados amplia a superfície de ataque contra alvos governamentais e civis. “Quando um zero-day cai nas mãos erradas, a janela de exposição é praticamente ilimitada até que o fabricante descubra e corrija a falha”, explica a analista de segurança digital Carla Soares. Foi o que motivou o DoJ a enquadrar o caso como ameaça direta à defesa dos EUA.

Mais detalhes sobre a acusação podem ser consultados no site oficial do Departamento de Justiça dos EUA, que disponibilizou a nota à imprensa com os autos do processo. Lá, os promotores reforçam que Williams violou cláusulas de confidencialidade internas e normas de exportação de material de uso militar.

A audiência de janeiro de 2026 definirá o tempo de reclusão e o valor das multas. Até lá, o ex-diretor da L3Harris seguirá monitorado eletronicamente, proibido de acessar sistemas de computação críticos e impedido de realizar transações financeiras acima de US$ 10 mil sem autorização judicial.

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Crédito da imagem: TechCrunch

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