Jornada de 52 horas na Coreia do Sul desafia setor tech

Jornada de 52 horas na Coreia do Sul foi pensada para proteger trabalhadores, mas hoje provoca intenso debate dentro do ecossistema de tecnologia. Em meio à corrida global por inovações em semicondutores, inteligência artificial e computação quântica, fundadores e investidores questionam se o limite semanal ajuda ou trava a competitividade frente a rivais que adotam culturas de expediente mais longo, como o modelo chinês 9-9-6.
Desde 2018, companhias sul-coreanas com mais de 300 funcionários já se adaptaram ao teto legal de 40 horas regulares mais 12 horas extras, com remuneração de pelo menos 50% acima do valor normal. A regra passou a valer para todas as empresas em 1.º de janeiro de 2025, sob pena de multas, responsabilidade civil e até prisão de executivos que descumprirem o limite.
Jornada de 52 horas na Coreia do Sul desafia setor tech
Para aliviar gargalos pontuais, o governo lançou em 2024 um programa especial que autoriza, com consentimento do empregado e aprovação estatal, extrapolar até 64 horas semanais por até seis meses em áreas consideradas “deep tech”. Apesar disso, reportagens locais indicam que poucas empresas recorreram à exceção e que o plano deverá ser gradualmente restringido.
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O impacto sobre investimentos foi destaque na fala de Yongkwan Lee, CEO da gestora de capital de risco Bluepoint Partners. Segundo ele, a limitação “é um fator desafiador” ao financiar startups de semicondutores, IA e quântica. Para negócios de estágio inicial, onde o ritmo de P&D dita marcos críticos, cada hora adicional pode acelerar lançamentos e encurtar o caminho até o mercado.
Pesquisa citada por Lee mostra que 70,4% dos funcionários de startups aceitariam trabalhar mais 52 horas por semana se houvesse compensação adequada. Entre os que vivenciam o dia a dia de desenvolvimento, a sensação de “restrição” é comum, como relata Bohyung Kim, CTO da LeMong, empresa que fornece soluções de IA para mais de 13 mil bares e restaurantes: “Nosso trabalho é resolver problemas complexos com criatividade. Quando surge um insight, o relógio some. Se a lei obriga a parar, a produtividade cai”.
O cofundador da mesma startup, Huiyong Lee, defende cálculo por média mensal — algo como 60 horas na fase pré-lançamento e 40 horas na sequência, mantendo 52 horas de média sem ferir a lei. Para ele, critérios mais maleáveis também deveriam valer para startups de até 20 funcionários, cujos ciclos de produto são imprevisíveis.
A correlação entre resultado e tempo investido também foi observada por Kim: “Os melhores performers costumam ficar mais horas, mas buscam reconhecimento em promoções, bônus e opções de ações, não pagamento extra pelo turno”. Ele avalia que decisões sobre flexibilidade deveriam seguir a lógica de mercado, sobretudo em setores de alta especialização técnica.
Outro investidor sediado em Seul, que preferiu não ser identificado, minimizou o efeito da regra nas decisões de aporte. Segundo ele, “muitas empresas de tecnologia nem registram ponto formalmente”. A preocupação maior, pontua, recai sobre indústrias intensivas em mão de obra, como logística ou manufatura, onde o adicional de hora extra pesa nos custos.

Imagem: Getty
Comparado a outros polos, o limite coreano fica no meio-termo. Na Europa, jornadas variam entre 33 e 48 horas; Austrália adota 38 horas; Canadá, 40. Nos Estados Unidos, a lei federal fixa 40 horas, mas não impõe teto máximo, cobrando 1,5 vez o salário pela hora extra. Singapura permite 44 horas regulares e até 72 horas extras mensais, o que pode chegar a 62 horas semanais. Já a China mantém oficialmente 40 horas, mas na prática tolera o controverso 9-9-6, tema de debates até no Parlamento Europeu, segundo a Organização Internacional do Trabalho.
Diante desse cenário, executivos sul-coreanos argumentam que impor rigidez semanal a atividades de P&D, marcadas por picos de esforço antes de lançamentos, pode desacelerar a inovação justamente quando o país busca liderança em chips avançados e IA generativa. Para o governo, contudo, flexibilizar demais significaria retroceder em conquistas trabalhistas e abrir brecha para abusos.
Por ora, a Coreia do Sul tenta equilibrar produtividade e bem-estar em um tabuleiro global no qual tempo é moeda de poder tecnológico. O debate permanece aberto: será possível conciliar a proteção ao trabalhador com a velocidade exigida pela fronteira da ciência?
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Crédito da imagem: Divulgação
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