Startup OpenWav quer mudar modelo da música digital e aproximar artistas de fãs

O músico, compositor e produtor vencedor do Grammy Wyclef Jean classificou o modelo atual da indústria fonográfica como “quebrado” e anunciou sua participação na criação da OpenWav, plataforma que pretende aumentar a receita de artistas independentes ao estabelecer conexão direta com seus admiradores. O aplicativo foi lançado no meio do ano e já está disponível para dispositivos iOS e Android.

Durante o evento Fortune Brainstorm Tech, realizado nesta semana, Jean, agora diretor criativo da empresa, criticou especialmente o sistema de remuneração dos serviços de streaming. Segundo ele, a quantidade de execuções necessária para gerar renda mínima inviabiliza a carreira de novos músicos. Para exemplificar, citou a iniciativa da rapper Cardi B, que recentemente vendeu CDs e vinis nas ruas em um vídeo do TikTok, como sinal de que os artistas buscam alternativas fora das grandes plataformas.

Esses argumentos foram reforçados pelo cofundador e presidente-executivo da OpenWav, Jaeson Ma. O executivo lembrou que, hoje, um músico precisa atingir cerca de 1 milhão de reproduções no Spotify para receber algo em torno de US$ 3 mil. Para alcançar US$ 10 mil, o volume deve ser multiplicado diversas vezes, o que Ma considera insustentável para iniciantes. Ele defende que, em vez de perseguir números altos de streaming, o artista se concentre em conquistar “mil fãs verdadeiros” dispostos a gastar US$ 10 mensais com conteúdo exclusivo, ingressos e produtos. Essa base, argumenta, poderia gerar aproximadamente US$ 120 mil por ano, montante suficiente para sustentar uma carreira independente.

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A proposta da OpenWav segue justamente essa lógica. A plataforma reúne em um único ambiente ferramentas para lançamento de faixas inéditas, venda de ingressos, comercialização de merchandising, organização de eventos presenciais ou virtuais e interação constante com a comunidade. De acordo com Ma, o artista recebe 80 % da receita proveniente dos bilhetes, enquanto 20 % fica com a empresa pela intermediação. Todas as pessoas que compram entrada ficam reunidas em um chat de evento, semelhante ao Discord, permitindo comunicação direta antes e depois dos shows. Produtos podem ser oferecidos dentro desse mesmo canal, sem necessidade de estoque antecipado, graças a um sistema global de dropshipping.

Outro diferencial destacado pelos fundadores é o acesso aos dados do público. Diferentemente das plataformas de streaming tradicionais, em que e-mails e contatos permanecem retidos pela empresa, a OpenWav libera as informações para que o músico mantenha relacionamento contínuo com sua audiência. A intenção é fortalecer o conceito de comunidade, considerado essencial para a sustentabilidade financeira dos independentes.

Embora o foco inicial estejam nos criadores em início de carreira, a ideia de explorar fãs mais engajados também tem sido estudada por serviços maiores. O Spotify, por exemplo, discute com gravadoras a criação de um novo plano premium direcionado a superfãs, que poderia incluir pré-venda de ingressos e outras vantagens. Tentativas anteriores de permitir upload direto de faixas por artistas independentes, porém, foram descontinuadas pela plataforma após pressões das grandes gravadoras.

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Imagem: Internet

A OpenWav pretende ainda integrar recursos de inteligência artificial em uma segunda fase do aplicativo. Segundo Ma, essas ferramentas vão atuar como um gerente virtual, sugerindo rotas de turnê, ideias de produtos e auxiliando na criação de artes para capas ou lyric videos. A IA também poderá ser usada para desenvolver designs de camisetas e outras peças promocionais, reduzindo custos e tempo de produção.

Wyclef Jean afirmou que, ao ampliar o conteúdo que artistas podem criar e vender diretamente, a tecnologia reforçará a autonomia dos profissionais. Ma citou o produtor Timbaland, que utiliza o serviço Suno como “sampler digital”, para exemplificar como a IA pode potencializar a produção musical.

Até que os novos recursos sejam lançados, a versão atual do aplicativo já permite que usuários descubram músicas inéditas, participem de chats exclusivos e adquiram produtos oficiais. A expectativa dos fundadores é que a combinação de relacionamento próximo, controle de dados e diversificação de receita transforme a forma como músicos independentes monetizam suas carreiras, reduzindo a dependência de modelos de streaming considerados pouco rentáveis.

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